Gestão e cidadania

Cidadania

Gestores de empresas devem colocar sua experiência administrativa para organizar as forças sociais em prol de melhorias na comunidade

José Olimpio Bastos – Superintendente Regional do SESI DR/PA, Ex-Gestor do Banco do Brasil, Graduado em Comércio Exterior, três MBAs voltados à liderança e gestão estratégica (FIA/USP, Wharton School-University of Pensylvania e INSEAD).
Revista Ideias em Gestão.
Julho/2010.

O lucro se constitui na finalidade principal da atividade econômica. E esse objetivo foi magnificamente alcançado pelos sistemas de produção, especialmente nas últimas décadas do século XX: nunca se produziu tanta riqueza, tanta tecnologia e tanto conhecimento. Não há, porém, um casamento entre o econômico e o social no sistema econômico vigente. Toda essa riqueza gerada ainda não é aplicada prioritariamente em ações sociais. A questão social é tratada de forma secundária pelas empresas e sem um compromisso verdadeiramente efetivo com suas consequências.

Fica para o Estado a responsabilidade exclusiva pela aplicação e custeio de programas sociais, cujos recursos são provenientes de parte dos lucros das empresas e do próprio cidadão, recolhida sob a forma de tributos.

O mercado global é extremamente importante para o desenvolvimento da umanidade, desde que administrado de maneira adequada, para que possa gerar resultados benéficos para todos. A economia globalizada, porém,por meio da abertura de mercados e queda de barreiras fiscais, ainda não foi capaz de reduzir os bolsões de pobreza e as injustiças sociais.

O sistema econômico e a dinâmica de funcionamento dos mercados são geradores da concentração de riqueza e contribuem para as desigualdades e exclusão social. A competição entre empresas tornou-se selvagem e predatória e a guerra econômica aprofundou os desequilíbrios nas relações sociais, deixando o indivíduo cada vez mais longe de exercer a sua cidadania. A ordem econômica não trouxe os benefícios esperados e não foi capaz de criar uma nova condição humana, mais justa e menos desigual.

Inovação e rupturas

O século XXI trouxe consigo novas perspectivas e mudanças no pensamento humano. O cenário atual, sob o impacto da inovação tecnológica, é de transformações das estruturas organizacionais e dos modelos de gestão, provocando rupturas no modo de produção, como a flexibilização das relações de trabalho e a desburocratização dos processos.

A sociedade vive tempos de transformações. São mudanças que nos levam a um novo mundo. O extraordinário nessa evolução é a intensidade com que acontecem essas mudanças, deixando para trás crenças e valores ultrapassados pelas necessidades do pós-moderno. O mundo corporativo acaba sendo transformado por esse movimento, tendo em vista que interage com o ambiente em que está inserido. As empresas, aos poucos, reconhecem a responsabilidade que lhes cabe de produzir riquezas para o fortalecimento da base econômica e social, além de contribuir para a elevação dos níveis de qualidade de vida da população.

Uma nova geração de administradores começa a adotar, no mundo dos negócios, abordagens pautadas por valores éticos e humanistas, vinculados às necessidades do cidadão, tornando obsoletos princípios e padrões até então dominantes. Cada vez mais empresas mobilizam suas forças e incluem em suas políticas institucionais ações de responsabilidade social.

Essa prática cidadã das organizações está comprometida com uma vida no planeta em que seja possível a realização dos direitos universais das pessoas, como o de uma vida digna, fundamentada na justiça social, a qual não deve ser confundida com assistencialismo. Muitos gestores desta nova era parecem estar comprometidos com a busca de alternativas para minorar os efeitos da exclusão social em que vivemos e atuam no sentido de que a dimensão social seja considerada nas práticas de gestão.

Articular forças e organizá-las

Essas reflexões eu as desenvolvo há muitos anos, a partir de meus estudos e, especialmente, de minha experiência como gestor. Desde quando vislumbrei os primeiros achados do dia a dia das belezas naturais do Baixo Amazonas, região onde vivo no norte do País, e talvez até levado pelo medo de perdê-las precocemente, internalizei alguns princípios que me levaram a buscar meios de compelir os cidadãos a se movimentarem em prol de ações voltadas para a manutenção ou melhoria do bem comum. Algum tempo depois, percebi que o gestor, seja lá de que natureza ou empresa for, reúne mais condições de prestar esse tipo de ajuda, por sua capacidade de articular forças e organizá-las em torno de um objetivo. É essa minha experiência, que gostaria de compartilhar neste artigo.

Na década de 90, ainda como gestor da área de câmbio do Banco do Brasil, idealizei o projeto “Educação, Cidadania e Turismo”, cujo objetivo principal era a execução, por meio de processos educativos em redes de parcerias, de pequenas ações de cidadania que pudessem contribuir para elidir determinados problemas que estivessem impedindo o desenvolvimento do turismo na cidade de Belém. Dezesseis das 102 ações previstas no projeto estavam relacionadas com a limpeza da cidade, a partir da conscientização das pessoas para que pudessem compreender a importância de uma cidade limpa para o incremento do turismo. A lógica do projeto era gerar injeção de recursos na economia local para que pudesse trazer benefícios para a sociedade, alimentando, assim, a cadeia econômica.

A repercussão desse projeto me fez despertar para a importância da cidadania, me animando para novas iniciativas. E aí surgiu, com base em um fato ocorrido comigo em uma feira livre de Belém do Pará, a inspiração para escrever um livro. O objetivo desta vez era mostrar para o cidadão o quanto se paga de tributos e como uma escolha consciente dos representantes da sociedade, no processo eleitoral, torna-se importante para que esses tributos sejam bem administrados, revertendo os valores recolhidos em benefícios para os contribuintes. “Senhor Cidadão, Você é o Patrão” foi escrito em 1998, época em que eu integrava a equipe de gestores do Banco do Brasil, tendo os colegas de trabalho como colaboradores desse projeto.

Vírus da cidadania

Em decorrência dessas ações de cidadania, os desdobramentos começaram a surgir, como, por exemplo, a criação da Associação dos Amigos da Praça Batista Campos. Essa praça, localizada em Belém, está entre as mais bonitas do Brasil. O sentimento de promover a sua conservação passou a despertar nas outras pessoas a consciência de práticas cidadãs para essa finalidade. Esse movimento levou ao surgimento de muitas outras associações fundadas com objetivos semelhantes.

Já impregnado com o vírus das ações de cidadania, quando deslocado para gerenciar uma agência do Banco do Brasil no campus da Universidade Federal do Pará, ao observar as condições precárias do patrimônio da Universidade, pensei como ex-aluno, bancado com os recursos vindos da sociedade: “por que não fazer algo para que outros também possam melhor se beneficiar?”.

Assim, com o apoio institucional do reitor Alex Fiuza de Melo e, mais uma vez, pelos colegas de trabalho, foi criada a Associação dos Amigos da UFPA. Essa instituição conta com o apoio de centenas de pessoas físicas e dezenas de empresas. Dentre as realizações, até o momento, podemos elencar a reforma do pórtico de entrada da Universidade, o ginásio de esportes, mais um restaurante universitário, restauração completa do espaço de convivência, calçamentos e praça de alimentação.

Já como Superintendente do Serviço  Social da Indústria do Pará (SESI), insisti em prosseguir com uma gestão fundamentada nos ideais de cidadania.  Essa concepção permitiu publicar em 2008, com a participação e apoio do presidente da Federação das Indústrias do Pará, José Conrado dos Santos, o livro “A Força do Cidadão”, tendo como objetivo disseminar as práticas de cidadania para o benefício da sociedade e das empresas, pois essas práticas refletem no ambiente de gestão. O livro remete o cidadão para a busca de uma participação mais efetiva no processo decisório em ações de interesse da sociedade e, por consequência, na gestão pública e privada.

Permitimo-nos colocar esses exemplos como um convite à reflexão sobre o papel que pode ser desempenhado pelos gestores nas organizações. O ambiente de competição, muitas vezes, leva ao individualismo. Mas o mundo é coletivo.

Esse paradoxo precisa ser repensado sob o ponto de vista social. A gestão não pode mais prescindir da incorporação, em seus valores, de uma responsabilidade social mais abrangente. Cabe ao gestor cidadão escrever as novas páginas da História.


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